anco fit poultry -activador de agilidade

Melhoradores da saúde intestinal das poedeiras: Oportunidades e desafios

O momento atual impõe ás atividades pecuárias demandas que, nunca na história, se impuseram de forma tão intensa e rápida como se observa agora.
De um lado temos a necessidade de produzir proteína animal em volumes crescente para atender as demandas por alimento de uma população que não para de crescer, por outro lado, esta mesma população está cada dia mais informada (com boas e más informações) e clamando por alimentos de melhor qualidade que possam suportar uma expectativa de vida saudável por mais tempo, mais baratos e sem ter o peso na consciência de que este alimento produziu algum sofrimento animal, social ou ambiental.

Soma se a isto o fator “recursos limitados” e podemos ter uma ideia dos desafios que temos pela frente.
Nunca as pontas do triangulo Quantidade, Qualidade e Custos tiveram seus nós tão apertados e a avicultura de postura comercial não fica fora deste contexto e, sem dúvida nenhuma, as principais tendências que estão em curso envolvem a restrição de uso de gaiolas convencionais e restrição de uso de agentes antibióticos.
Estas duas tendências vão ter impacto direto na saúde e eficiência do TGI (Trato Gastrointestinal), que é uma importante peça desta máquina de transformação de rações em ovos chamada poedeira.

Portanto, o objetivo desta discussão é pontuar algumas ideias e pontos de vista que possam ajudar no entendimento e atendimento das demandas atuais, elencando algumas ferramentas e tecnologias de produção disponíveis com foco na manutenção e melhoria da saúde intestinal das aves.

Alguns pontos importantes sobre saúde do TGI

O TGI apresenta uma complexidade enorme, tanto em termos de estrutura anatomofisiológica e histológica, como em termos de Inter relações com outros sistemas ou mesmo com o conteúdo intraluminal.
Quando falamos em saúde intestinal em poedeiras, não estamos tratando somente sobre a eficiência dos processos de ingestão e digestão do alimento e consequente absorção dos nutrientes, mas também sobre uma importante função do TGI que muitas vezes passa desapercebida: A seleção do que deve ou não ser absorvido, ou seja, nutrientes, agua, eletrólitos podem. Toxinas, micotoxinas, endotoxinas e microrganismos, não podem.

Diferente do que possa parecer, o epitélio do tubo digestivo tem contato direto com o meio externo, já que assim se considera o lúmen intestinal e dadas as condições de temperatura, humidade e presença de nutrientes, este espaço se constitui em ambiente perfeito para o desenvolvimento de uma enormidade de microrganismos, uns benéficos ou simples comensais, porém outros que são patógenos.
Além disso, o epitélio intestinal está em contato íntimo e constante com material estranho ao organismo, ou seja, com o alimento antes de este ser “preparado” pelos processos de digestão. Junto com nutrientes, este “material estranho” chamado alimento, carreia uma infinidade de componentes e microrganismos que podem ser considerados inertes, porém não raro carreia toxinas, micotoxinas, agentes antinutricionais, alcaloides e um sem número de outros componentes que são potencialmente danosos. Em resumo, o TGI está constantemente exposto a riscos e agressões. Felizmente, a natureza dotou os animais de mecanismos de proteção que funcionam muito bem em condições normais e que mitigam estes riscos.
Infelizmente nem sempre temos as condições de normalidade e a intensidade dos riscos sobre passa a capacidade de mitigação.

Podemos dizer que o lúmen intestinal pode ser um “amplificador” do que está ocorrendo no ambiente externo. Assim sendo, não dá para falar de saúde intestinal sem comentar algo sobre saúde ambiental e saúde alimentar. Qualquer ferramenta usada com a intenção de melhorar a saúde intestinal vai falhar frente a um ambiente altamente contaminado, com temperatura, humidade e condições de conforto inadequadas ou a um alimento deteriorado ou inadequado.

Neste sentido, o cuidado com a saúde ambiental e alimentar no que se refere a cuidados com desinfecção, controle de pragas, controle de temperatura, umidade bem-estar dos animais e controle de qualidade das matérias primas usadas nas rações, vai ter reflexo direto com o que está no interior do lúmen intestinal e consequentemente no sucesso do emprego das ferramentas que serão discutidas adiante.

Restrição ao uso de antibióticos & Restrição ao uso de gaiolas convencionais: Tempestade perfeita?

Deixando um pouco de lado questões de bem-estar animal e segurança alimentar, podemos afirmar que o modelo convencional de produção de ovos seria quase perfeito em termos de saúde intestinal das aves. Manter os animais distantes da principal fonte de contaminação que seriam as excretas e além disso usar um promotor de crescimento antibiótico ou mesmo um “choquezinho” com antibióticos em doses terapêuticas de tempos em tempos, com vistas a dar uma “limpadada” nas aves, a priori poderia parecer o ideal. Em termos práticos, não foi isso que vimos em várias situações.

Infelizmente, uma arma extremamente potente foi usada como ferramenta para acertar erros no “B a Ba” do manejo, ambiência e desinfecção e realmente tudo indica que teremos fortes restrições de uso.

Juntemos a isso uma tendência, que tudo indica também irreversível, se não no curto, mas no médio e longo prazo, de restrições ao uso de gaiolas convencionais, onde os animais ficarão mais expostos ás fontes de contaminação ou que apresentem maior dificuldade para higienização (certamente os trabalhos de higienização de uma “gaiola mobiliada” será um pouco mais difícil) e talvez tenhamos desenhada uma tempestade perfeita em termos de saúde intestinal.

Felizmente a experiência tem mostrado que é sim possível a adaptação à nova realidade, que será focada em bem-estar animal e qualidade intrínseca do ovo, mantendo os mesmos níveis de rendimento zootécnico e econômicos observados com técnicas de produção que utilizamos até então.
Logicamente, com a mudança no modelo de produção, novos desafios surgirão no futuro e problemas que não tinham tanta importância no modelo convencional podem ganhar nova dimensão. Como exemplo podemos citar agravamento de problemas com insetos, principalmente o Anphitobius diaperinus e parasitas intestinais.

Em se atendo exclusivamente á saúde intestinal, podemos afirmar que para atingir este objetivo, atenção deve ser dada a 3 áreas estratégicas do modelo de produção:
– Saúde Ambiental
-Saúde Alimentar
-Emprego adequado de ferramentas auxiliares.

Saúde Ambiental:

A principal barreira contra o desenvolvimento de enfermidades se encontra na própria ave, porém estes mecanismos de defesa possuem limites relativamente estreitos com relação a condições de temperatura, umidade e mesmo estresse social para perfeito funcionamento. Desta forma, boas condições de manejo dos animais, bem como ambiência, jogam papel fundamental.

Como dito anteriormente, o TGI é um amplificador do que está ocorrendo em termos microbiológicos no ambiente, dado as condições de temperatura e disponibilidade de nutrientes encontrados em seu lúmen. Desta forma, manter os níveis de contaminação microbiológica ambiental controlados é fundamental.

Não dá para falar de saúde microbiológica ambiental sem fazer breves comentários sobre desinfetantes. Primeiramente é bom deixar claro que não existe uma molécula ou formulação que seja melhor que a outra. O que existe são situações distintas em que um produto vai funcionar melhor que o outro. Em assim sendo, causa muita surpresa encontrar uma granja que trabalha somente com um tipo de desinfetante, já que em um ambiente de produção existem diversas situações. Daí a necessidade de conhecimento da realidade de cada granja em termos de desafio microbiológico e ambientais e o conhecimento sobre as características dos produtos disponíveis.

Existem várias tabelas agrupando as características das diversas moléculas, mas o ideal é a consulta aos provedores destes produtos para maiores informações. Abaixo, segue um exemplo extraído do The Center for Food Security & Public Health, Iowa State University.

Saúde Alimentar:

Quando falamos de saúde alimentar, não nos referimos somente ás rações e seus componentes. A água se encaixa nesta categoria como sendo um dos principais alimentos (e também vetor de disseminação de enfermidades), além de servir como veículo e agente na aplicação de medicamentos, vacinas, desinfetantes e processos de limpeza. A monitoria constante da qualidade de agua, bem como o uso de técnicas de potabilização são muito importantes para garantir a saúde intestinal.

No que se refere ás dietas (matérias primas e rações), não há dúvidas de que a melhor ação estratégica continua sendo a vigilância constante através de técnicas de controle de qualidade aplicadas de forma sistemática.

Muitos desvios nos parâmetros normais de qualidade (desvios físicos, químicos ou microbiológicos) de matérias primas e rações podem ter seus efeitos negativos minimizados quando identificados a tempo. Infelizmente muitos produtores de ovos não têm um controle de qualidade adequado em suas fábricas de rações ou por não dar a devida importância a este tema ou por acreditarem que são caros e de difícil execução, o que não é verdade.

A simples monitoria rotineira de umidade, densidade, classificação de grãos e avaliação do milho em câmara de Barabolak, podem trazer informações preciosas para tomada de ações corretivas ou que minimizem o impacto de matérias primas fora de padrão nas dietas. Abaixo segue sugestões que podem orientar na implantação de um programa básico de controle de qualidade de milho.

Referente ao tema de saúde nutricional, não podemos esquecer os esforços no sentido de equilíbrio nutricional das dietas que deve ser feito de maneira a não faltar nutrientes, como também a não sobrar. Da mesma forma que os animais precisam de nutrientes, os patógenos também precisam. Isto se verifica de forma clássica na relação excesso proteico e desenvolvimento de Clostridium.

Emprego adequado de ferramentas auxiliares

Primeiramente definiremos ferramentas auxiliares como sendo produtos e serão consideradas auxiliares porque vão ajudar a controlar estressores e suas manifestações que vão aparecer ou ter sua manifestação amplificada em decorrência de falhas nas estratégias de manutenção da saúde ambiental e saúde alimentar.
Podemos listar os principais estressores que impactam diretamente sobre a saúde intestinal como sendo:

– Micotoxinas
-Mudanças abruptas na dieta
-Agentes Antinutricionais
-Ingredientes de baixa digestibilidade
-Patógenos
-Estresse Ambiental

A figura abaixo representa as principais manifestações, ou efeitos, produzidos pelos estressores. Estas manifestações são compartilhadas pelos diversos estressores e são potencializadas quando da presença de vários estressores ao mesmo tempo. Fatalmente, estas manifestações vão levar a perda de produtividade das aves e também redução na qualidade do ovo produzido.

Vamos antes a uma breve descrição sobre os efeitos da ação dos estressores, o que será importante no entendimento de alguns mecanismos e oportunidades do emprego de algumas das ferramentas auxiliares.

Estresse oxidativo

A interessante teoria endossimbiótica diz que provavelmente a mitocôndria, importante organela celular responsável pelo processo de respiração da célula eucarionte (fosforilação oxidativa) e consequente produção de energia, era, no passado, um organismo procarionte (talvez uma bactéria) que em algum momento foi capturado pela célula eucarionte e passou a conviver em seu interior, gerando energia em troca de proteção e nutrientes, o que foi um passo gigantesco para acelerar os processos de evolução. Infelizmente o processo de produção de energia gerado pela mitocôndria traz como consequência a produção concomitante de Radicais livres (tanto de Oxigênio como de Nitrogênio, também chamados de Espécies Reativas, EROs e ERNs).

Estes radicais livres são altamente tóxicos para as células, estando envolvidos nos processos de oxidação lipídica, proteica, danos ao DNA e morte celular. Felizmente a evolução proveu as células de mecanismos de combate a estes radicais livres dos quais podemos citar mecanismos enzimáticos (SOD, Catalase, GPX, etc), metaloproteínas e vitaminas (C e E). O Estresse Oxidativo se dá quando um estressor promove a produção de radicais livres a um nível que ultrapassa a capacidade da célula em combate los.

Chama a atenção o potencial de estimulação de produção de radicais livres protagonizados pelas micotoxinas o que pode ser verificado nas alterações dos complexos enzimáticos celulares antioxidantes e produção de Malondialdeído.

Inflamação:

O intestino, como mais importante órgão linfoide e em contato direto com “material estranho” está constantemente sob influência de processos inflamatórios através da ativação da resposta imune inata, o que pode ser agravado pela ação de estressores.
O problema com isso é que a manutenção destes processos inflamatórios demanda uma grande quantidade de energia, que é mobilizada em detrimento da energia destinada aos processos produtivos. Além disso, sob ação de processo inflamatório a ave tem seu apetite comprometido, o que agrava ainda mais os danos sobre a produtividade e qualidade de ovos. Quando há inflamação, 70% da redução de desempenho se deve a perda de apetite. (Klassing, 2004) e Em aves sob desafio, a resposta imune inata e adaptativa utilizam 550µmol/kg/día de lisina, a qual poderia ser utilizada para crescimento sendo convertida em 7,8g de massa corporal (Kassing, 2004).  Podemos assim dar uma dimensão econômica em frente a este problema.

Redução da integridade intestinal

Quando falamos sobre integridade intestinal podemos nos referir à eficiência dos processos de ingestão, digestão e absorção de nutrientes, porém não é só isso. Como dito anteriormente, existe uma infinidade de substâncias e microrganismos na luz do intestino que não podem ultrapassar a mono camada de enterócitos, sendo assim, uma importante função do intestino é proceder a absorção seletiva.
A mais importante estrutura histológica que é responsável por esta característica se encontra na junção entre os enterócitos chamada de junções ocludentes (Tight Junctions). Esta complexa estrutura é formada por diversas proteínas, entre as quais podemos citar Ocludina, Caludina e ZO-1. O perfeito arranjo entre estas proteínas “sela” o espaço entre os enterocitos permitindo a passagem somente pequenos solutos hidrossolúveis e ions, deixando na luz intestinal moléculas mais complexas como toxinas e micotoxinas e microrganismos. Diversos estressores têm o potencial de interferir na qualidade e quantidade da produção das proteínas de junção, o que vai resultar em “permissividade” intestinal, ou seja, o intestino passa a “permitir” a passagem de “coisas” que não deveriam passar.
Além disso, dada a complexidade dos processos normais de absorção, vários estressores vão comprometer a absorção normal de nutrientes, o que vai resultar em uma inversão de função entérica, ou seja, o TGI começa a dar passagem ao que não devia e deixa de absorver o que deveria.


Apetite Reduzido

São muito complexos os mecanismos de regulação do apetite em aves e muitos deles são afetados direta ou indiretamente pela presença de estressores.
Vale chamar a atenção para a ação de alguns estressores sobre os mecanismos hormonais de regulação do apetite, como por exemplo os mecanismos envolvendo colecistocininia e peptídeo YY que podem sem “enganados” através de hiperestimulação por alguns estressores, principalmente micotoxinas, produzindo se assim inapetência.

Ferramentas Auxiliares (breve descrição)

Como dito anteriormente, a natureza proveu as aves de mecanismos de defesa contra os estressores, porém estes mecanismos apresentam limitações de funcionamento de acordo com condições ambientais e intensidade do desafio. Neste sentido, as ferramentas auxiliares (produtos) têm como objetivo diminuir ou neutralizar a intensidade do desafio ou estimular os mecanismos de defesa naturais das aves ou uma interação dos dois.
Será deixada de lado a abordagem sobre promotores de crescimento antibióticos, já que uma das teses centrais desta discussão leva em conta a possibilidade de restrição de uso desta ferramenta.

Por motivo de mais fácil entendimento sobre cada uma, as ferramentas auxiliares serão classificadas em 2 grupos:
– Ferramentas de impacto direto sobre os estressores
– Ferramentas de estimulo aos mecanismos de defesa.

Conclusões

– A atividade pecuária de produção de ovos está passando por um momento bastante dramático do modelo de produção convencional devido a exigências do mercado no que diz respeito a bem-estar animal e segurança alimentar.

– O principal desafio destas mudanças vai se dar a nível de saúde intestinal

– Estas mudanças vão exigir a adaptação do produtor tanto no sentido de se ater com mais cuidado a tecnologias que já são consagradas a muito tempo, principalmente se ater aos fundamentos de ambiência e controle de qualidade de processos, quanto a implantação de novas tecnologias.

by Marco Aurelio Stefanoviciaus Nunes